<$BlogRSDUrl$>

quinta-feira, abril 22, 2004

Aquacultura – O Triunfo da Sardinha


Ainda me lembro da primeira vez. Vejo-me a sorrir no carro, com elas ao lado, pensando como eram bonitas e frescas. Sim, eram duas. Só pensava em comê-las, e quanto mais depressa melhor.

Corri para casa e olhei novamente para elas antes de as lavar. Maneirinhas, nem grandes nem pequenas, indubitavelmente frescas e luzidias, e a um preço incrível. Por isso trouxe as Douradas do mercado em vez do Carapau.

Só comecei a desconfiar da esmola quando as coloquei na grelha e me começou a cheirar a sardinha, da espanhola, e o peixe a largar molho como lentriscas.

No sábado seguinte fui reclamar e soube o que se passava. De início a peixeira não me quis dizer, tentou disfarçar, mas por fim, moidinha de remorsos, lá me mostrou o certificado de origem : Aquacultura-Grécia.

Percebi que era o fim. Ás trutas do Nabão, vilmente difamadas com os sucedâneos pré-fabricados, juntavam-se agora a dourada, o robalo e o rodovalho. E donde provinha tal infâmia? Do Parténon, suposto berço do conhecimento e da cultura ocidental . Quiçá daí o nome do negócio: Aqua Cultura. Mas, digo-vos, não ides na cantiga do Delfos, e antes de vos conhecer a vós mesmos, tentai primeiro conhecer o peixe que comeis.

Daí para cá, dou graças a Jupiter pelo Sargo, pela Petinga, pelo Linguado e demais peixes Santos que não se dão em viveiro. E na dúvida, quanto à origem Atlântica do peixe, vou pelo seguro e peço Sardinha.

Na verdade, isto de criar peixes é como criar filhos. Não basta dar-lhes Farinha Amparo e esperar que cresçam. Não resulta. Temos que nos dedicar porque a tarefa é complexa. Dificilmente triunfamos ao criar um ou dois, e se nos aventurarmos a três, a façanha torna-se realmente hercúlea. Ora criar um cardume inteiro é obra impossível de levar a bom termo. O mesmo se passa com os miúdos. É impossível juntar um magote de recém nascidos numa escola e esperar que saiam conformes. As similitudes entre o processo educativo e de crescimento dos miúdos e dos peixes são tantas que os ingleses, entendidos nestas coisas de pedagogia como se comprova com as famosas teorias do Dr. Spock, inventaram o substantivo colectivo «School of fish».

A natureza até fez a coisa bem feita e a cada espécie foi dado um nº limitado de descendentes. Um filho/peixe deve ter uma mãe e um pai, e os pais não devem ter mais filhos do que possam criar. Neste sentido, li algures que há uma relação causa/efeito entre a palavra “Mãe” e a expressão “Meu Deus!”. É que quantas mais vezes os filhos/peixes chamam a primeira, mais as mães dizem a segunda. Onde se lê mãe pode ler-se pai.

E aqui entramos no impacto do processo nos progenitores. Se bem que me pareça que baste por vezes um único filho, na idade da puberdade, para dar cabo do equilíbrio mental e emocional dos pais, é indesmentível que o perigo de colapso físico e psicológico se adensa com a multiplicação dos rebentos.

Para pescar um bom peixe/filho são precisos horas e horas à beira mar. Por vezes desesperamos, pensamos não estar à altura da tarefa, duvidamos mesmo se vale a pena o tempo investido na pesca e desinvestido em nós. Mas, quando os nossos peixes/filhos nos olham, e olhamos nos seus olhos, compreendemos que a espera compensa.


This page is powered by Blogger. Isn't yours?